Numa era em que os líderes do centro agem como gestores de opinião pública em vez de líderes, otimizando mais para sobreviver a eleições do que para governar com amor, torna-se evidente uma necessidade: devolver ao centro a convicção que hoje parece habitar nos extremos.
A “convicção” dos extremos é uma imitação, porque a verdadeira convicção não grita nem se cala; orienta-se para o bem. É um compromisso interior e exterior com aquilo que se reconhece como essencial.
Os extremos aparentam ter convicção na sua disposição para o confronto e sacrifício, mas falta-lhes o propósito que a faz ser: procurar cumprir a verdade, em vez de tentar impor uma ordem sobre ela. Querem ditar as regras da sociedade e que todos ajam, ou até pensem, como eles.
Ainda assim, ao imitarem essa convicção, expõem aquilo que o centro perdeu.
Vivemos um momento marcado por figuras que trocaram direção por cálculo, como António Costa e Luís Montenegro. Nas mais diversas áreas, o centro hesita, recua ou dilui o seu discurso. E ao fazê-lo, abre espaço para soluções mais simples, mais afirmativas, e certamente mais perigosas, vindas dos extremos.
Mas este equilíbrio é frágil. Não tardará que forças mais assertivas ocupem o espaço político: Pedro Passos Coelho poderá regressar, potencialmente em alinhamento com o Chega; do outro lado, novas lideranças como a de um “jovem turco” poderão aproximar-se da extrema-esquerda. E nesse movimento, o centro arrisca-se a ficar órfão.
Mas o centro político moderno, enquanto suposto guardião da democracia, não deve adormecer. Porque a democracia não é complacência, e o diálogo nem sempre deve significar consenso.
Por isso, sendo essencial que PSD e PS resistam à tentação de ceder ao discurso extremado que os rodeia, é igualmente crucial que não confundam moderação com ausência de força. Convicção não é extremismo: é uma condição de uma democracia viva.
Um líder que agora represente o centro com firmeza seria alguém que ainda acredita que Portugal inteiro, não fragmentado em guerras culturais, vale a pena.
E Portugal inteiro não é pedir uniformidade. Não é a dissolução das diferenças numa identidade única, como pretendem os regimes autoritários. É, pelo contrário, o reconhecimento de algo mais fundamental: antes de qualquer divisão política ou ideológica, há uma condição que partilhamos e em que nos podemos tornar. É a partir daí que as diferenças interpessoais passam a ser contributos e não supostos obstáculos.
Por isso, importa exigir aos próximos líderes do centro mais do que capacidade de gestão. Exigir convicção, clareza sem simplificação, e uma visão que transcenda a sociedade de blocos em confronto permanente, orientando-a para uma sociedade em que as pessoas trabalhem juntas por algo melhor.
A função de uma liderança forte não é ofuscar nem educar, mas ajudar. Não é reduzir, mas permitir que se eleve. É ter a clareza para decidir e opinar sem cair em tentações extremistas, e o desejo de que cada um possa ser o melhor de si. Esta é a convicção que pode guiar o meu partido, PSD, e também os restantes partidos democráticos, independentemente de diferenças programáticas que, no global, são, apesar de tudo, menos relevantes do que proteger uma liberdade resistente e responsável.
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